Histórias de Vida

Para melhor compreender o quotidiano, as tradições e a cultura Quilombola, apresentamos neste espaço, testemunhos na primeira pessoa. Viaje connosco ao interior do Quilombo!

Os Quilombolas partilham aqui o que é ser Quilombola num discurso livre, sem correcções ou adequações. Falam das suas preocupações e revolta face à discriminação de que ainda hoje são alvo e abordam temas como a posse da terra, o trabalho, o acesos à saúde, à educação e a vida em família.

Os testemunhos que aqui apresentamos foram recolhidos em Quilombos do Estado do Maranhão e de Goiás no âmbito do Projecto de Apoio às Comunidades de Quilombos no Brasil: Iniciativas Inovadoras de Desenvolvimento Sustentável [implementado pelo IMVF em parceria com o Instituto Brasileiro de Ação Popular (IBRAP), com o co-financimento da Comissão Europeia, entre 2004 e 2009], por Verônica Gomes (técnica do projecto).

A luta pelo direito à posse da terra tem sido constante na história das comunidades Quilombolas. Patrício Sampaio, António Meireles, Jovêncio Pires, Tinoco, Aldenora Fonseca e Raimundo Fonseca, partilham connosco a origem das terras que habitam e a luta que travam pelo direito em fazer daquelas comunidades as suas vidas.

(…) a nossa comunidade, ela é uma comunidade que é negra, mas que os direito, a gente ainda não tem. Porque tá na constituição federal, os direito? Tá. Eu tenho dois livro da constituição federal e diz que há passagem livre ‘pa’ todo cidadão brasileiro. Ida e vinda, sem proibição, mas só não em Santa Maria dos Pinheiro. E aí eu me pergunto: gente, será possível que só nós, que num temo esses direito? (…)
Tinoco, Quilombo Santa Maria dos Pinheiros, Maranhão.

O sustento da grande maioria das famílias Quilombolas provém da Roça. A agricultura, a pesca, a pecuária, a fruticultura, são as principais fontes de sobrevivência e rendimento das comunidades. Jaqueline Belfort, Severina Pires, Ceci Belfort e o Sr. Tinoco, partilham connosco o quotidiano de uma vida de trabalho.

“(…) é porque é o sustento da roça que tiramo o nosso sustento, né? É o arroz, a mandioca, o milho, tudo, tudo… é tirado o sustento, algumas vezes, porque aqui na comunidade não tem emprego pra que receba algum dinheiro. (…)”
Jaqueline Belfort, Quilombo Santa Rosa dos Pretos, Maranhão

A identidade Quilombola atravessou gerações – a sua cultura e costumes reflectem hoje um legado histórico riquíssimo. Contudo, são muitos os jovens que, nos dias de hoje, se vêem obrigados a deixar para trás as suas comunidades e procurar novas oportunidades na sociedade brasileira. O afastamento de gerações poderá pôr em causa o legado de centenas de anos. Patrício Sampaio, Benedito e Francisca Belfort e jovens das comunidades relatam como o difícil acesso a serviços básicos como a saúde, a educação ou mesmo a um emprego condiciona a vida de dezenas de jovens, suas famílias e, naturalmente, comunidades inteiras.

“(…) melhorar o problema do… da escola, que tem a gente tem que se mover daqui lá “pa” uma comunidade mais longe. Aqui não tem o terceiro ano. Só isso. Queria assim… deixaram muito de mão assim, a parte da cultura porque falta resgatar a cultura, porque a gente vê assim, que muito jovem aqui que num sabe assim, o significado de cada cultura.(…)”
Jovem do Quilombo de Santa Rosa dos Pretos, Maranhão

Comments are closed.