Os jovens e a comunidade

Os testemunhos aqui apresentados foram recolhidos em Quilombos do Estado do Maranhão e de Goiás no âmbito do Projecto de Apoio às Comunidades de Quilombos no Brasil: Iniciativas Inovadoras de Desenvolvimento Sustentável [implementado pelo IMVF em parceria com o Instituto Brasileiro de Ação Popular (IBRAP), com o co-financimento da Comissão Europeia, entre 2004 e 2009], por Verônica Gomes (técnica do projecto).

 

Patrício Sampaio | Quilombo de Monge Belo, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Verônica: O senhor acha arriscado, quando os jovens aumentam o conhecimento deles e não mais voltar?
Patrício Sampaio: Não, eu acho que ele tem que ir e voltar, pra trazer conhecimento pros outros.
Verônica: E a mentalidade dos jovens aqui da comunidade ta voltada pra isso?
Patrício Sampaio: É , tem muitos deles voltados pra isso, muitos deles querem sair pra trabalhar em São Paulo, porque aqui num tem como, né não? Vive aqui desinformado, vivem aqui sem ganhar ajuda de nada aí fica difícil e querem sair. Eu tenho dois filho aqui, um quis sair eu falei: não, você vai ter que estudar ver se você faz primeiro o segundo grau.
Verônica: Tá estudando?
Patrício Sampaio:Tá estudando.
Verônica: aqui mesmo na comunidade?
Patrício Sampaio:A onde??? (ironia) são 11 quilômetros daqui. No São Francisco, tem dia que vai, (…) chega todo melado de lama e aí tem dia que não vai o carro não espera porque atrasa na viagem.
Verônica: Aqui é o final da Ponta Grossa?
Patrício Sampaio:Aqui é o final. Muitas das vezes os colega dele do colégio ficam criticando ele porque ele chega todo melado de terra senta na cadeira molhado aí mas não é por querer, é uma força que eles não pode.
Verônica: Qual seria o transporte ideal pra transportar essas crianças e jovens?
Patrício Sampaio:Olha, eu achava que um ônibus seria suficiente, né?
Verônica: É melhor na estrada, ele é mais pesado, né?
Patrício Sampaio:Né, não? Porque as criança, tem dia que vão dois três sentado um na perna do outro pro colégio. Os meus aqui tem que levantar quatro hora da manhã sem ser horário de verão, com horário de verão é três hora da madrugada, né? Então você vê, uma pessoa passar um ano estudando, levantando quatro hora da manhã, retornando em casa uma e meia da tarde, quando chega num tem mais tempo pra nada, ta entendendo? Até as atividade que tem por fazer…
Verônica: Sai de lá onze horas e chega aqui uma e meia.
Patrício Sampaio:Sai de lá onze e meia, né? Onze e meia, aí num caso desse, chuvoso aí chega no caminho e vem com os livro, panha muita chuva, aí tem que ficar numa casa até passar a chuva, muitas das vezes deixa os material em viagem e vem se embora, aí nem as atividade faz nesse dia.
Verônica: E esses jovens também trabalham na roça? Ou não?
Patrício Sampaio: Trabalha sim. Tem que trabalhar.

Benedito Pires Belfort (70 anos) | Povoado de Barreira Funda, Estado do Maranhão [Abril, 2009]
Verônica: (…) o senhor, nas atividades daqui, da comunidade, da escola, o senhor já ouviu alguma coisa, dizer que trazem o assunto sobre a cultura negra, sobre a cultura do nosso povo pra ser tratado  nas reuniões, pra ser tratado na comunidade? A comunidade reaviva esses valores da cultura negra ou isso é uma coisa que passa despercebida?
Sr. Benedito: Não, é… essa luta na é d’agora. Né? Essa luta, eu me lembro bem que quando eu comecei, ingressei na luta quando (…) eu teria 30 anos. Né? Hoje eu já tô 60, eu tenho 60 anos de luta, né? Só que a gente, tem momento que a gente tá dizendo ‘nós vamos resolver’. E aí, quando pensa que não, tudo volta atrás.
Verônica: E como é que tá sendo o repasse dos conhecimentos de vocês, que são mais velhos, pra jovens da sua comunidade? É difícil, tá acontecendo, não tá acontecendo?
Sr. Benedito: Não, até… é… é difícil isso. Porque a juventude, eu não vou falar da família alheia, eu falo primeiro na minha, né? Porque essa juventude, ela pensa que ela não tem nada no mundo. E a gente sempre explica que esse mundo é deles. Porque eu vou-me embora, né? Eu não sei que dia eu vou, mas quem eu vou… pra quem vai ficar no meu domínio? Ninguém  quer, porque ninguém quer aprender. Ninguém quer… quer se envolver na… na… no caso da luta. Não é? Pra que isso possa crescer, amanhã. Alguém que diz assim:’ Olha, teve um pessoal aqui fazendo uma pesquisa, e eles me disse assim, o seguinte: ‘ Olha, eu pretendo que essa luta sua… ela vai valer para o seu filho, para o seu neto’. E digo: ‘Não. A minha luta eu quero que sirva para mim. Porque eu já tô com 60, já tenho 30 de luta, por causa de que eu não posso participar dessa grande luta? Eu ?(…).
Verônica: E aqui também não tem uma associação de jovens não, né?
Sr. Benedito: Não. Já se tentou fazer uma várias vezes. (..). É como se diz:’Eles vão… eles começam uma semana , um mês muito bem. (…) cada qual puxa seu recanto e acaba com a sociedade.
Verônica: Então deve ter um ou outro jovem que tem que… consegue puxar um? Mas sozinha não vai à frente?
Sr. Benedito: Realidade. Isso é… isso é o positivo. Né? Porque, vamos dizer nós fazemos um grupo de jovem, de 10 jovens, mas… né? E esses oito… e esses  poderá (…) os dez que tão querendo ingressar na luta. O… tem lou não tem a força para chamar os pra que né? Some junto. Mas os 20 tem a força de puxar os 10 que tá querendo ingressar.
Verônica: Aqui na comunidade tem problema de alcoolismo e de uso de droga?
Sr. Benedito: Bom, essa questão se eu disser pra senhora que não, eu estou mentindo, né? Eu não… não sei lhe dizer mutio bem porque eu não me entroso muito com eles. Eu mesmo, eu vejo o ponto deles, se tão fumando, se tão fumando, se tão bebendo, tão bebendo, eu… Mas se eu disser pra senhora que não, estou mentindo.

Francisca Belfort (54 anos)| Santa Rosa dos Pretos, Itapecurumirim, Estado do Maranhão, [Abril 2005]
Verônica: Tem muitas pessoas que tão saindo aqui da comunidade pra trabalhar fora?
Francisca: Os jovens, né? Principalmente os jovens. Inclusive, tem um menino com vinte anos que ta trabalhando em São Paulo porque aqui não tem trabalho pra eles, mas com fé em Deus ele num vai ficar lá não porque Deus num vai deixar, né? Mas pra isso precisa assim… que alguém ajude, né? 
Verônica: O quê que a senhora acha que fazem os jovens sair?
Francisca: Ah… eu acho que é assim… uma falta de trabalho pra eles aqui, né? Porque a gente pensa assim, a gente diz assim: Óia, se eu soubesse o que vocês sabem hoje, eu não tava na roça, então, o que faz nós ta na roça? Porque nós não sabe de nada, né? E os jovem de hoje, eles são bem estudado, né? E eles não querem mais trabaiá de roça.
Verônica: Mas a senhora acha que o trabalho de roça pode melhorar?
Francisca: Eu acho que pode, porque…
Verônica: Eles podem ajudar nisso?
Francisca: Com certeza porque pra isso o prefeito ta nos garantindo que nós vamo largar de trabalhar na roça de toco e aí, com o trabalho mecanizado, né? Com certeza vai melhorar.

Jovem de Santa Rosa dos Pretos, Itapecurumirim, Maranhão [Abril 2005]
“(…) o nosso jovem, hoje, enfrenta essa dificuldade de sair da sua comunidade pra estudar lá, em outro lugar, né? Então essas são as barreira que muito atrapalha um pouco essa juventude. Então, são coisas que estão precisando melhorar, né? É a comunidade juntamente com órgãos, que são mais por dentro deste assunto, para que o nosso jovem seja capacitado do começo. E poderia ter (…) um curso de mecânica porque (…) passa carro na pista. As vez quebra um, num tem oficina perto. Tem correr daqui lá no entroncamento “pa” ajeitar. Por isso num tem. Aqui podia ter também um curso de profissionalizar os jovem, que as vez tem jovem que sai, vai pra roça trabalhar meio dia. Podia ter um curso “pa” eles também aprender. Um curso de informática também, que aqui nós não temos e aí também melhorar o problema do… da escola, que tem a gente tem que se mover daqui lá “pa” uma comunidade mais longe. Aqui não tem o terceiro ano. Só isso. Queria assim… deixaram muito de mão assim, a parte da cultura porque falta resgatar a cultura, porque a gente vê assim, que muito jovem aqui que num sabe assim, o significado de cada cultura. É, num sabe dançar um co… eu pelo menos num sei dançar o côco. Então eu acharia assim, que melhorasse também a parte da cultura.”

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