Posse da Terra

Os testemunhos aqui apresentados foram recolhidos em Quilombos do Estado do Maranhão e de Goiás no âmbito do Projecto de Apoio às Comunidades de Quilombos no Brasil: Iniciativas Inovadoras de Desenvolvimento Sustentável [implementado pelo IMVF em parceria com o Instituto Brasileiro de Ação Popular (IBRAP), com o co-financimento da Comissão Europeia, entre 2004 e 2009], por Verônica Gomes (técnica do projecto).

 

António Meireles | Quilombo de Monge Belo, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
António Meireles: Esta terra foi meu avô que comprou né?
Verônica: Quem é seu avô?
António Meireles: É o veio Marciliano o veio Marciliano que era o pai de meu pai. Compro e deixou para a descendência dele todinha colocou ai, mas os massandin chegaram e tomaram de conta hoje nós estamos aqui em pé.
Verônica: O seu avô comprou estas terras de quem?
António Meireles: Ele comprou estas terras do povo filin Costa
Verônica: Ele tem documento?
António Meireles: Se tinha eu penso que os massandin dos cartórios invadiu ele i tomo dele os documentos
Verônica:E hoje está terra é de quem?
António Meireles: Esta terra, esta terra hoje cada um tem uma parte, deles ai cada dia que um limpa o vum aumenta os pedaços para dentro da deles.

Sr. Geraldo | Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Sr. Geraldo:  Meu pai era daqui, meu avô. Meu avô era escravo do barão. E quando o barão tava doente,  pra morrer, ele foi deixar ele em Itapecuru. Meu avô junto mais o companheiro dele. (…) levou pra o hospital e tinha um lá que era compadre dele, e disse: ‛Compadre, você vai morrendo e deixando seus preto tudo à toa, assim? Sem nadinha? Aí ele olhou assim pra ele, não, companheiro, eu vou deixar à toa, não! Aí ele disse:’ Eu vou deixar um terreno pra ele, terra pra ele. Ah, na beira do rio Itapecuru, na margem esquerda (…).

Patrício Sampaio | Quilombo de Monge Belo, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Verônica: O senhor sabe da história de ocupação dessa área? Como foi que se deu pra essa população que mora aqui? Como foi que essa população herdou essa área?
Patrício Sampaio: Aqui é o seguinte, aqui tá um problema sério porque essa área aqui a gente não tem como da gente. O pessoal grileiro vive sempre perturbando com a gente. A gente vive todo tempo aqui sendo perturbado por eles, de vez em quando eles tão invadindo a área, a gente vai e pede pra eles parar, eles pára e depois torna a voltar de novo e a gente num tem terra pra trabalhar.
Verônica: Mas vocês tem terra aqui com prova que alguma parte dessa área é de vocês, vocês tem documento?
Patrício Sampaio: Não, tem uma parte aqui, mas de quilômetro.
Verônica: Mas já foi comprovada?
Patrício Sampaio: Não, ainda num foi comprovada por causa que houve grileiro sempre invadindo a área, né?
Verônica: Eu sei, mas tem algum documento antigo que diga que essa terra foi dada pra vocês, ou doada, ou herdada, transferida, alguma coisa?
Patrício Sampaio: Não, ela tem um pequeno documento que ela é uma herança. Olha, eu tou com… vai fazer quarenta ano que eu moro aqui e sempre teve esses conflito, né? O meu pai ta com setenta e cinco anos nessa mesma luta, sempre fomos perseguido por eles.
Verônica: Sempre a mesma família?
Patrício Sampaio: Família Mendes. Porque aqui antes tinha limoeiro, um bocado de pé de fruta, tinha laranja, essas coisas assim ele chegou e mandou derrubar tudo. Dessa vez a gente se mobilizou pra evitar aqui a entrada deles mas sempre continua, às vezes eles ameaça a gente e a gente vai e pede pra eles parar e aí fica naquele negócio agente mesmo aí no verão passado a gente foi lá, falou com eles trataram muito mal a gente, mas a gente num foi pra briga, né? A gente só foi apenas só pra mandar parar o serviço e depois foi pela justiça até que eu forneci documentos pra mim chamar testemunhas, eles humilharam a gente e até hoje ta na justiça o processo.

Aldenora Fonseca | Quilombo de Monge Belo, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Verônica: (…) Quem deu essa terra pra sua avó?
Aldenora Fonseca: Aí eu num sei… ah! Agora vou ti contar. Foi assim: essa terra…. diz que meu avô era um vaqueiro dum… sabe desses pessoal antigo, esses negócio de barão? Aí diz que essa terra era desse pessoal e meu avô ganhou porque era vaqueiro deles as vezes pagou ele com essa terra, né? Aí eu num sei.
Verônica: Então, deram pro seu avô mais sua avó, mas pra eles, ou pra todo mundo que trabalhou?
Aldenora Fonseca: Não, nesse tipo era pouca gente que tinha aí , quando eu num tivi era pouca gente que tinha aí, não tinha esse bando de gente aqui, tinha pouquinha gente aqui aí quando eu … já num achei mais nem meu avô aqui, só deu pra ver a minha avó que tava veinha.
Verônica: E qual é a extensão dessa área? Onde que é o limite? A senhora sabe dizer se ver alguém aqui perguntar a senhora sabe levar?
Aldenora Fonseca: Por onde meu avô dizia, por onde a gente vive eu sei que era aqui por dentro do mato.
Verônica: Por que quando chegar a hora de vocês resolverem esse problema de terra, vai ter que ter alguém aqui pra dizer onde é que começa e onde é que termina.
Verônica: Você sabe dizer?
Aldenora Fonseca: Num sei.
Verônica: Quem é que sabe dizer aqui? O Francisco só é?
Aldenora Fonseca: O Raimundo.
Verônica: Raimundo sabe?
Aldenora Fonseca: … eu num sei  no local assim eu num sei dizer, eu ouvi dizer que tinha até uma pedra aí dentro dos mato … se tinha tirado essa pedra que eu num sei a onde é. Agora, aqui, se tinha um caminho de zorra que chamava, na beira do campo aí também, lá na beira do campo a onde passava.
Verônica: Me diga uma coisa, dona Aldenora, sabe dizer se existe algum documento ainda dizendo que essas terra são da sua avó?
Aldenora Fonseca: Senhora, eu sei que tinha um documento que solicitava na mão do advogado lá em São Luís, até que tempos atrás um moço do INCRA veio aqui, a gente disse pra ele que tinha e ele disse que tinha encontrado.
Verônica: E esse advogado é advogado da comunidade, é?
Aldenora Fonseca: Não, eu num sei se ele era da comunidade porque aí nesse tempo, foi através dele que fez essa comunidade aqui, que ninguém queria.ele quem mandou chamar o pessoal aqui porque num tava lucrando no sóio, o sóio ainda era muito ameaçado, né? E ele disse: óia dona, vai chamar o povo lá, só num chama quem tem terreno, mas uma pessoa que num é dona do terreno que morar tudo naquele local, você vai chamar e fazer uma associação de moradores, que através dessa associação aí sabe que existe gente lá.
Verônica: Aí surgiu a associação a partir daí, foi?
Aldenora Fonseca: Foi, aí foi que ele partiu com essa associação, ele não era da comunidade mas ele fez muita coisa por nós, se num fosse ele nós num tava aqui não, porque ele quem chamava nós pra ir em Itapecuru e dizia isso e aquilo, ligava pro advogado, o advogado vinha… mas ele na queria dinheiro, nós só pagava a gasolina do carro dele pra ele vir … era só a gente ligar pra ele, ele vinha, podia ser lá em Itapecuru.

Jovêncio Pires | Quilombo de Santa Rosa dos Pretos, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Verônica: Como foi que essa comunidade herdou essas terras?
Jovêncio Pires: Essas terras… você fala em geral?
Verônica: Santa Rosa.
Jovêncio Pires: A Santa Rosa. Eu… se eu tô nessa idade, mas num sei bem como nasceu, mas de certo de… de onde eu nasci pra cá… 
Verônica: Então me diga aí, desde a época do senhor.
Jovêncio Pires: Que eu, quando me “intindi”, o meu avô, que era o…  o escravo do Barão, do Barão (…) Aí papai casou “cum” mamãe, fez a “famia” e tal, aí “nois fumo chegano.” Mas já “conheceno” meus avós pra trás cum minha vó. Aí… eles contavam muito… que eles “foro” escravo. Meu avô e minha avó foi escravo. O Barão deixô pra eles. “Herdô-se”… se uma casa grande e… os preto “foro” escravo dele. Me a… a… até chegô a casa de meu avô e minha avó “foro” escravo dele e o mais “véi”, “memo”, da que morava na Santa Rosa. Todos “foro” escravo. E… e ele morreu. Deixô “po”  tio meu. Aí o Barão foi o tempo pa… se acabô, que eu num sei a hora que o tempo que ele se acabô, que ele morreu, num tem “lembrano.” Aí ele morreu. Passô a mão, deixô po escravo, dele. E meu avô “seno”… o… o mais véi do lugá. Ele passô “cum” a mão e deixô “as escritura.”
Verônica: Como é o nome do seu avô?
Jovêncio Pires: Era Filipe. Filipe Belfort.
Verônica: O senhor não tem Belfort no nome também, não? Ou o senhor… num quer usar?
Jovêncio Pires: Não. É porque… porque eu num uso, sabe por quê? Porque a minha mãe num era casada “cum” papai, civil. Nessa época só pegava nome se fosse casado civil. Se fosse católico, aí num pegava. Aí papai era casado “cum” mamãe no católico. Aí eu só peguei a assinatura da minha mãe. Ficô a do “véi” solto, que era Belfort. É. E aí ele passô a mão e deixô as escritura, “véi” Filipe, mas aí eu ainda cansei o meu avô dizê: ói, essa terra aqui num tem, num tem venda, num tem quem venda, num tem (?) É pa criá filhos e neto e tataraneto e tá, tá, tá…
Verônica: E o senhor sabe os limite da terra?
Jovêncio Pires: Até… que eu entendo os limite da terra. Tem uma… uma pedra bem “aculá”, tem outra pra cá, tem uma aqui no meio, tem outra lá no Saco Grande e outra pra cá.
Jovêncio Pires: Mas já “conheceno” meus avós pra trás cum minha vó. Aí… eles contavam muito… que eles “foro” escravo. Meu avô e minha avó foi escravo. O Barão deixô pra eles. “Herdô-se”… se uma casa grande e… os preto “foro” escravo dele. Me a… a… até chegô a casa de meu avô e minha avó “foro” escravo dele e o mais “véi”, “memo”, da que morava na Santa Rosa. Todos “foro” escravo. E… e ele morreu. Deixô “po”  tio meu. Aí ele (o Barão) morreu. Passô a mão, deixô po escravo, dele. E meu avô “seno”… o… o mais véi do lugá. Ele passô “cum” a mão e deixô “as escritura.”
Verônica: Como é o nome do seu avô?
Jovêncio Pires: Era Filipe. Filipe Belfort.
Jovêncio Pires: E aí ele passô a mão e deixô as escritura, “véi” Filipe, mas aí eu ainda cansei o meu avô dizê: ói, essa terra aqui num tem, num tem venda, num tem quem venda (…) É pa criá filhos e neto e tataraneto e tá, tá, tá…
Verônica: E o senhor sabe os limite da terra?
Jovêncio Pires: Até… que eu entendo os limite da terra. Tem uma… uma pedra bem “aculá”, tem outra pra cá, tem uma aqui no meio, tem outra lá no Saco Grande e outra pra cá.
Jovêncio Pires: E aí… “nois fumo se formano”, “fumo se formano” e aí foi um… o pessoal “foro” “morreno”, “morreno”, “morreno”, “morreno”, os mais “véi”, e aí… foi tempo que meu avô morreu, passa po… pa meu tio Albano, que era irmão de meu pai. Deu o documento pa Albano. Aí que o Albano, nesse tempo, era só a gente… num sabia, “memo”, a escritura.

Libânio Pires | Quilombo de Santa Rosa dos Pretos, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Verônica: O senhor pode me dizer quanto tempo Santa Rosa dos Pretos existe nesse local? Como é que surgiu aqui?
Libânio Pires: Ah, isso aqui surgiu, a Santa Rosa aqui, pelo no tempo da escravatura, né? Aí de mil e oitocentos e oitenta e oito, né? Já ela já existia, né? Agora só que ela era dum senhor, dum barão, e esse barão, o nome dele era… que aqui eram “dois barão,” num sabe? Esse daqui, o primeiro que era o dono daqui, era um senhor de Ferbur, né? Ferbur num sei de que, eu num sei qual era a signa dele, né? (…) Sei que o nome dele era Ferbur. Então esse Ferbur, ele, a gente dele era mais pouco, né? De que esse Joaquim Raimundo Nunes Belfort, mas só que aí eles “passaro” a mão, o Joaquim Raimundo Nunes Belfort era de “ota” comunidade, num sabe? Daqui da Mandioca, Santa Rosa, uma Santa Rosa que tem aqui do “oto” lado do rio. “Entom,” mas que a família do Joaquim Raimundo Nunes Belfort era maior, né? “Entom” a terra, né? Num era suficiente pra ele fazer o trabalho dele com “os escravo.” “Entom” eles “passaro” a mão, “trocaro” a área, né? O Ferbur deu essa aqui “pó” Joaquim Raimundo Nunes Belfort, e o Joaquim Raimundo Nunes Belfort passou essa “ota,” de lá, pra eles, né? E desse tempo que a gente já com certeza já existia aqui, porque os meus avós, né? Bisavós, né? “Foro” escravo dele, né? Agora, já o meu pai, num foi escravo mais, né? Que quando o meu pai nasceu já tinha passado a abolição da escravatura. Passado não, né? Tinha declinado um pouco porque a escravatura inda num acabô “mermo,” não. Ela inda… inda continua, embora que seja mais fraca, né? Ma inda continua. “Inté” por certas partes inda tem muita escravatura aqui no “mei” da gente, ainda. “Entom”, dessa era pra cá, eu nasci, o meu pai nasceu aqui nessa área, né? A gente, eu também já nasci, num sei nem quantos anos é… que ela tem. Ela tem pra mais, muito mais, de duzentos anos, né? Com certeza, né? E a gente inda continua aqui, né?
Verônica: E aí esse seu… esse barão, ele deu terra pra… pra os escravos dele, foi?
Libânio Pires: “Óia,” eu, dizendo eles, que eles “doaro,” mas que aí ele num… ele… ele já tava “mei” acochado porque já num tinha mais era com que acho que o… o que fazia para os escravo, né? Não tinha com que retornasse o que ele fez, né? “Entom” ele “duo” essa área aqui para os escravo. Foi uma doação, né?
Verônica: E tem algum documento que comprova isso? Tem?
Libânio Pires: “Óia,” esses documento, ele tá “mei” “difíci” porque… o “meus antepassado,” meus pais, né? Esse mais “véio,” dizia que existia esse documento. O documento rezava que era uma légua e três maria, né? Era seis mil e seiscentos metros, seis mil e seiscentos com seis mil e seiscentos, mas ela quadrava uma légua sesmaria. Agora… um período, né? De lá pra cá, e essa terra inda dizia ainda que ela, em tempo algum num poderia ser vendida, tá? Mas só que aí teve um tempo, né? É de mil novecentos e cinqüenta e dois pra cá havia um decreto-lei que aí eles poderia, “podero,” né? “Distraviá” a metade, né? E hoje a gente se encontramos nela aqui com duas mil e cem, duas mil e… quatrocentos e cinqüenta “equitare” de terra é que, já é só a metade, né? (…) Inda aí, no cartório, a gente ainda encontrava um documento que dizia que enquanto tivesse uma só… pessoa, ela num poderia ser vendida. Aí “inté” eu procurei pra… pra o tabelião, nessa época, e o porque que ela tava seno vendido. Aí ela me disse o seguinte… ela mostrô que era o dinheiro, né? Que aquilo era parte da justiça. Eu digo: “óia,” dona Glaciele, “entom” eu num entendo isso como uma justiça, eu tô enxergado que é uma injustiça porque se aí consta que em tempo algum ela num poderia ser vendida, e essas terra tá “seno” vendida. Ela disse pra mim: ah, mais cartório tá aqui é pra ganhá o dinheiro. Se tu quiser uma área de terra “inté” lá, em Anarratuba, o cartório tá aqui “pa” te fornece a… a certidão. Agora lá tu vai brigá  “cum” quem quer que seja, com o dono (…) Os documento foi fraudado. Com certeza foi fraudado porque eles diz lá que o cupim deu nos documento, estragô uma várias “foia” dos documento e tem… a gente tem um documento “véi” aí que… que é… que é borrado. Num tem quem (…) enxerga “pa” dizê, assim, alguma coisa, tá? E ainda esse que a gente ainda tem esse tudim, né? Ele tem hora que ele diz que num é esta área daqui porque esse barão, ele tinha essa área aqui, que é aonde era o centro de trabalho com os negro. E tinha “oto” povoado, que era aqui, a Boa Vista, que era aonde a família dele principalmente morava, né? “Entom” essa lá era meia légua de frente, né? Que era deles lá. “Inté” tem aí um camarada que (…) eu num sei nem o que a gente vai fazer com ele, que é o senhor do Zé Capírio, que era bisneto dele, do barão, tá? Então… e lá era meia légua de frente como a de fundo, né? Meia de frente como a de fundo. Quer dizer: pegava da beira do rio e vinha “inté” aqui, no travessão aqui da gente, né? E esta légua de fundo, aonde era que dizia que aonde era o estabelecimento de lavoura dele, ele deixava para os preto que tinha servido como os escravo. E essa área foi vendida, foi horrível, foi horrível. E nesta área, quando a gente, eu peguei “intidimento,” que comecei uma luta aqui por ela, a gente desta área… a gente só já tinha um quilômetro de terra. Já tinha distribuído tudinho. (…) A gente só já tinha um quilômetro aí. Com isso eu comecei um trabalho, né? E comecemos “afastano” eles daqui. “Afastano,” “afastano…”
Verônica: E isso o senhor fazia como? (…) Quando o senhor começou a fazer esse trabalho, o senhor reuniu algumas pessoas…
Libânio Pires: (…) Aí também me “convidaro” “po” movimento. Ah, nessa época, o movimento era ACR, né? (…) nessa época, o ACR significava Animação dos Cristão no Meio Rural, né? Aí era junto com os padre, bispo, né? Essas gentes assim. Ah, depois hoje, ACR, e aí eu… eu me ainda me identifico como militante da ACR. Ela mudô um pouco, né? Pa… que ela hoje, ela é articulação, né? É dos cristão no meio rural, tá? Então com isso, eles me “dero” muita coragem, tá? Me “dero” muito bem coragem. Me “dero”, assim, um… (…) Um treinamento que eu pude, né? Saí “cunversano,” “cuversano”. Aí me deu coragem. Porque naquela época… né? Naquela época a gente tinha vergonha de… né? De contestá, assim, uma coisa como já falô um doutô, uma qualquer coisa, um juiz de direito. Essas coisas a gente era todo temeroso, né? E eles me “dero” muita coragem em cima até da bíblia, né? A bíblia me deu um trabalho que aí eu comecei a perder o medo de dizê a verdade, né? De, assim, a gente foi “jogano” eles fora. E a gente ficô nessa duas mil cento e… que era duas mil cento e setenta e oito “equitária.” Depois “vei” um regulamento, pela parte do governo federal, pra vê o que tinha, né? Aí foi que chegô em duas mil quatrocentos e cinqüenta “equitária,” que é esse pedaço que a gente é… está ainda “conviveno” hoje. Agora só que ainda hoje, pra em quantidade de família que existe na área, ela num… (…) Ela é pouca. E fora os que tão tão “chegano” e tão “sabeno” dessas coisas. Vem cada um, faz um pedaço de casa e aí, cada vez mais, tá “diminuino,” tá? E documento, a gente tem a memorial, né? Porque eu conheço… eu conheço os lugares do limite dela, por onde passa. Isso, num perdi da visão porque eu conheço todo o limite dela eu conheço.

Tinoco | Quilombo de Santa Maria dos Pinheiros, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Tinoco: “Porque pra mim, eu poderei dizer, né? Porque é essa comunidade, Santa Maria dos Pinheiros, ela é uma comunidade negra. Por que negra? O dono que era aqui, ele era de Portugal. Se dava-se o nome de Federico Pinheiro. ‘Entom’ este povoado ficou o nome de Santa Maria dos Pinheiro. Sim, nós não somos da geração dele, que nós não somos de Portugal. O nosso sobrenome não pegou nada com Pinheiro porque o nosso tataravô é que era escravo dele, do Federico. E esse Federico, ele não tinha família. Quando ele tava pra morrer, ele disse pra meu antepassado, que ele não tinha nada com que pagasse ele, tá entendendo? O que ele tinha pra deixar pra ele, era essa terra. Uma légua e seiscentos metros. Um quadro de terra, pra criar filhos, netos, bisnetos, tataranetos e quem chegasse, que não tinha negociação na terra. Não tinha negociação. ‘Entonce’, os meus antepassados, né? Que foram os que ‘vinhero’ da África também, né? Mas quando eles é… nos vários tempos, tiveram condomínios da terra, né? Usando, fazendo tudo com os filhos, netos, bisnetos… tudo. De uns tempo, já o velhos morreu, morreu outro. Ficou já no mais novo, que era o filho do outro. Aí eles ‘ficaro’. Não eram estudado, não sabiam lê. E aí chegou um cidadão muito esperto, né? E aí procurou que o papel tava ilegal, que queria botar em ordem, os papel, né? De repentemente surgiu um ‘flaude’ na terra e eles perderam os condomínios da terra, né? De uma légua e seiscentos metros, o quadro. Isso foi uma confusão. Isso foi uma revolução. (…) nós ficamos ‘disnortiado’. Na mão do latifundiário. E aí começou. Aí aqui vivia tudo cheio de gado. Socado de gado. Eu, por ser o irmão mais novo, uns tempos aí, eu já com uma porrada de tempo que eu vem pelo movimento, né? E aí comecemos e vim perguntando ‘cumé’ que tava a situação aqui e tal, que foi um projeto também. ‘Vida de nego’, né? Começou e aí eu disse pra eles, que não tinha condição de pagar advogado, né? Aí foi que iniciou esse trabalho. Começamos num tá recebendo os quatrocentos ‘equitare’. Quer dizer… que só mesmo pra morar, mas num foi. Até na BR, ficamos presos. (…) Aqui tá no fundo de tudo quanto é fazenda, que num tem nem por onde passar uma estrada. Quando o Incra entrou aqui, eu discuti com eles porque se não chegava até na estrada. (…) Quando esses fazendeiro fechar, doutor Eugênio (do INCRA), acabo-se. Disse: não rapaz, isso aqui quem vai dar tudo no ponto é o Incra, rapaz. O Incra é que vai resolver esse ‘pobrema’. Doutor Eugênio, isso vai dar ‘pobrema’. Aí todo mundo trocava o justo evangelista, que sempre um grande parceiro, que nunca arriou as comunidade. Sempre junto com a gente. Ele disse pra ele, disse: senhor, ou você sai de cima do muro, ou num se resolve o ‘pobrema’. Disse: não, mas num tô em cima do muro. Se você não tá do lado dos fazendeiro, num tá do lado da comunidade, aonde você tá? Tá em cima do muro. Então desça de cima do muro. Aí foi que ele foi tentar resolver, conferir mangueira, pé de manga, pé de laranja, pé de limão, tudo, tudo ‘pa’ iniciar esse trabalho de quatrocentas ‘equitária’, mas nós ficamos preso. E aí, depois que terminou, o fazendeiro cortou o que num queria passar só a cavalo, bicicleta e a pé. E aí? A comunidade ficou sofrendo necessidade porque, se não existe… um bom médico na comunidade, é por causa da estrada. Por causa da falta da terra, que nós não temo porque só pode ter a estrada, se tiver a terra. E só pode ter um professor de qualidade na comunidade, se tiver a estrada. Só pode vim uma merenda, um remédio, um médico pra comunidade, se tiver a estrada. Se não tiver, nada é feito. Não tem fonte de renda, não tem nada na comunidade sem ter essa estrada. ‘Entom’, tudo participou daí, do conflito que teve. Que, se não me engano, a esse conflito começou é… em sessenta, né? Num foi em… sessenta? Em sessenta começou esse conflito. Olha, gente, de sessenta prá cá, confere que já tem um bocado de anos, né? É. E veje bem, pra ver as conseqüência que temos essa comunidade. E é uma comunidade de quatrocentos e tantos anos, essa comunidade. Mas num tem uma estrada ‘pa’ o menino ir ‘po’ colégio. E se agradecemos essa estrada de servidão, aqui. Aqui por dentro. (…) Veja bem, mas tá todo cheio de gado daqui até na BR. Todo cheio de gado e arame energizado, eletrificado. Arame eletrificado nas vias do caminho. Só nas vias do caminho aonde passa as pessoas. Veja bem! Num é pra gado, não é pra nada porque se fosse pra gado, ele circulava, mas é só a donde a gente passa. É só a gente, donde a gente passa. Eles ligam lá na fazenda. Aqui, onde a gente passa, pega o morto. Triscou no arame, já viu. ‘Entom’ a nossa comunidade, ela é uma comunidade que é negra, mas que os direito, a gente ainda não tem. Porque tá na constituição federal, os direito? Tá. Eu tenho dois livro da constituição federal e diz que há passagem livre ‘pa’ todo cidadão brasileiro. Ida e vinda, sem proibição, mas só não em Santa Maria dos Pinheiro. E aí eu me pergunto: gente, será possível que só nós, que num temo esses direito? Só nossos filho que num temo uma boa escola, num tem um médico. Temos um posto médico, temos um bonito colégio, mas a merenda se deixa lá no Colombo e nós que temos que ir buscar. Se é na cabeça, se é na bicicleta, se é no cavalo… nós temos que ir buscar. Ou vai buscar, ou nosso filho num come, né? ‘Entom’ eu o que eu tenho a dizer é essas palavras que, pra melhorar aqui, em Santa Maria dos Pinheiro, como remanescente dos quilombo, essa área, temos que trabalhar em benefício de muitas e muitas coisas que tá faltando porque, em primeiro lugar que faltou, a principal é a estrada.”

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