Economia Quilombola

Os testemunhos aqui apresentados foram recolhidos em Quilombos do Estado do Maranhão e de Goiás no âmbito do Projecto de Apoio às Comunidades de Quilombos no Brasil: Iniciativas Inovadoras de Desenvolvimento Sustentável [implementado pelo IMVF em parceria com o Instituto Brasileiro de Ação Popular (IBRAP), com o co-financimento da Comissão Europeia, entre 2004 e 2009], por Verônica Gomes (técnica do projecto).

Jaqueline Belfort | Comunidade de Santa Rosa dos Pretos, Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril 2005]
Verônica: Aqui todas as famílias trabalham com roça, né? Não tem uma que não trabalhe. Todas as trezentas e poucas famílias tem.
Jaqueline Belfort: Tem, é porque é o sustento da roça que tiramo o nosso sustento, né? É o arroz, a mandioca, o milho, tudo, tudo… é tirado o sustento, algumas vezes, porque aqui na comunidade não tem emprego pra que receba algum dinheiro. Quando falta assim… porque tem muitas pessoas que ganham roupa porque num tem condição de comprar uma roupa, né? Porque é difícil, é muito difícil as pessoas terem um dinheiro… aqui o dinheiro que a maioria das pessoas pegam assim, é quando tem diária que algum aposentado paga  é de graça saber…. os nossos idosos que tão na faixa etária de receber o seu salário de aposentadoria, todos recebem graças a Deus e o dinheiro  que entra aqui na comunidade é esse desses aposentado, alguns aposentado pagam diária pra outras pessoa trabalhar na roça dele .
Verônica: E é dez reais?
Jaqueline Belfort: É dez reais a diária. É essa com que eles vão ajuntando pra comprar o sal, essas outras coisa pra complementar o arroz, a farinha a roupa. É muito difícil viver assim.
Verônica: Você acha que os jovem da comunidade, eles estão preparados pra dar continuidade trabalho ao de cultivo e de respeito a terra aqui na comunidade, ou eles não tem mais os mesmos pensamento dos pais, eles tão querendo sair daqui?
Jaqueline Belfort: Alguns pensam em sair e tem alguns que saíram, né? Só que os que ficaram eles continuam trabalhando, ajudando os pais na roça, cultivando, até porque vai passando de pai pra filho os trabalho de roça. O pai desde cedo vai levando a pessoa pra roça. Agora, porque tem o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), mas só que o PETI não abrange toda a criança porque é só de sete a dezesseis anos aí de dezesseis anos num tem nem um trabalho voltado pra essas pessoas aí o jeito que tem é ajudar os pais na roça e estudar a noite.
Verônica: Eh… além da roça… que a maioria das famílias aqui cultiva arroz, cultiva trigo, mandioca, né? Existe… você tem conhecimento de alguém que trabalha também a questão de artesanato? Ou a iniciativa primeira ia ser essa daí das oficinas dos menino pra fazer tamborzinho de crioula e tal?
Jaqueline Belfort: Essa… a iniciativa é essa do tamborzinho de crioula, até que algumas temos muitas sementes, mas num temos aquele curso, aquela preparação pra que possamos fazer, porque semente nós temos bastante a palha, até que tem um artesanato que é o coco, né? Que é onde nós fizemo, que colocamo nossa mandioca, colocamo nosso milho, colocamo nosso arroz depois de colhido e coloca nesses coco, um pra artesanato, mas é feito só pra…
Verônica: Num é feito pra vender.
Jaqueline Belfort: Não é feito pra vender, é só feito pra uso.

Severina Pires | Comunidade de Santa Rosa dos Pretos, Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril 2005]
Verônica: E esses cultivo que a senhora faz é o mais importante da região? Assim: arroz, mandioca, milho é o mais importante daqui? Ou tem outro que a senhora acha que é mais importante?
Severina Silva: Não. Eu sempre eu me criei, nasci e me criei e o meu trabalhando de roça aí… e aí a gente também foi cativa (…)
Verônica: Tem muita gente saindo da comunidade “pa” trabalhar fora?
Severina Silva: Tem.
Verônica: Vão trabalhar geralmente aonde?
Severina Silva: São Paulo, Brasília…
Verônica: Ah, vão pra fora do Estado, né?
Severina Silva: É. São Paulo, Brasília.
Verônica: E a senhora acha que é em razão de quê?
Severina Silva: Necessidade. Porque aqui não tem como eles sobreviverem e eles vão trabalhar fora.
Verônica: Nem mais perto, como São Luís, dá pra ir?
Severina Silva: Num, num tem.
Verônica: Também lá, não?
Severina Silva: Porque os serviços que eles querem, o São Luís não, não, não…  é mais certo.(…)
Verônica: E a senhora conhece gente que saiu e se deu bem lá fora?
Severina Silva: Conheço os vários.(…)
Verônica: Assim…  num tiveram que voltar, não?
Severina Silva: Não. Tem que voltar porque eles vão trabalhar só pelo menos pra um seis mês, um ano. Aí tem que voltar pra casa.
Verônica: Num consegue um fixo.
Severina Silva: Num fica. Não consegue ficar. É. Não consegue ficar lá no Estado, não. Tem que vim pra cá, “po” Maranhão.
Verônica: A senhora utiliza algum tipo de transporte, pra transportar a sua produção? Não existe esse transporte?
Severina Silva: Não. Aqui por enquanto não existe esses transporte. Até porque, minha amiga, o que a gente tira do roça é mesmo “pa” cumê, mesmo. Nunca dá, assim, pra gente vender, pra sobreviver, comprar outro tipo de coisa. A gente tem que se virar.
Verônica: Não dá só dá pra sobreviver porque a área que planta é pouca, ou porque não tem é equipamento que possa ajudar a produzir mais alto?
Severina Silva: Num tem equipamento. Num tem equipamento, não nunca “nóis” tivemos aqui pra fazer uma área maior, um campo agrícola, pra ter, pra tirar pra vender, pra sobreviver, pra tirar, pra vender. Num chegô pra “nóis”, aqui. Porque aqui a área é muito boa. Vai depender de ter um… curso pra gente sobreviver, trabalhar.
Verônica: As pessoas, aqui, já conseguiram fazer irrigação na roça? Ou tem que botar… esperar a água da chuva, ou tem a irrigação pra a água circular?
Severina Silva: Tem que esperar a água da chuva, que Deus manda.
Verônica: A senhora tem condição de pagar alguém pra cuidar da sua roça também, ou é só sua família que trabalha lá?
Severina Silva: Não tenho condição. Só minha família que trabalha. Meu esposo e meu neto.
Verônica: Hum hum. A Senhora cria, também, algum animal?
Severina Silva: Não.
Verônica: E aqui, também, num tem peixe também não, né?
Severina Silva: Peixe?
Verônica: Criação? Criação de peixe? Ou tem?
Severina Silva: Não. Tem não. Não tem criação de peixe, não. É só nos “Garapé” que a gente pesca. Nos “corgo.”
Verônica: É. Certo. Qual é a principal fonte de renda, então? Se a senhora tá dizendo que aqui a roça é basicamente pra comer?
Severina Silva: É.
Verônica: Qual é a renda então que as pessoas têm? O Dinheiro, aqui, vem de onde?
Severina Silva: Minha linda, dinheiro aqui, quem é empregado na prefeitura, se “mante” com esse dinheiro. E quem não é,  é obrigado fazer um “panero” de farinha, ou dois, e se vender pra sobreviver, né?
Verônica: Um “panero” é quantos quilos? Trinta?
Severina Silva: É. Trinta quilo.

Ceci Belfort | Comunidade de Santa Rosa dos Pretos, Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril 2005]
Verônica: Qual o tamanho da sua roça?
Ceci Belfort: Esse ano é uma “equitária” de três linha.
Verônica: E quanto é que… qual é o tipo de colheita que a senhora faz?
Ceci Belfort: É milho, mandioca, arroz, né?
Verônica: Qual que a senhora considera mais importante?
Ceci Belfort: Todos.
Verônica: E a senhora vende algum, ou é só pra comer?
Ceci Belfort: Geralmente o que mais a gente vende aqui é mandi… é a farinha, né?
Verônica: Hum hum.
Ceci Belfort: O arroz, sempre a gente tem aquele cuidado de deixar “po” gasto, né? O milho se vende verde, às vezes seco, mas também a gente tem o cuidado de deixar pra botar “pras” galinha da gente, né?
Verônica: E quando a senhora vende a farinha, a senhora vende como? Faz como, pra vender?
Ceci Belfort: É…  A gente faz é… bota de molho, mexe a farinha…
Verônica: Não. A senhora prepara a farinha…
Ceci Belfort: Prepara a farinha…
Verônica: O que eu quero saber é assim: a senhora leva pra onde, “pa” vender?
Ceci Belfort: É as vezes se vende na comunidade pra pessoas que vem comprar, né? E tem algumas pessoas que vão, leva pra São Luís, leva pra outro lugar, mas que geralmente aparece uns comprador na própria comunidade e a gente vende.
Verônica: Certo.  E a senhora tá vendendo quanto, o panero?
Ceci Belfort: Trinta reais.
Verônica: É o preço normal, esse? É o preço que todo mundo vende?
Ceci Belfort: Não. O é…
Verônica: Varia?
Ceci Belfort: Varia.
Verônica: De quanto a quanto?
Ceci Belfort: Por exemplo, é… tá de trinta, né? Mas ele, ultimamente o pessoal tão vem… tão querendo só dá só vinte e cinco… vinte. Essas coisas toda.
Verônica: Tão regatinhando.
Ceci Belfort: É. Tão regatinhando.
Ceci Belfort: E aqui tem saído muita gente do povoado, pra trabalhar fora daqui, de Santa Rosa?
Verônica: Mais, mais as feminina.
Verônica: É?
Ceci Belfort: É.
Verônica: Elas vão trabalhar de quê?
Ceci Belfort: Casa de família.
Verônica: A maioria, né?
Ceci Belfort: A maioria.
Verônica: E os homens ficam na roça.
Ceci Belfort: Ficam na roça.
Verônica: E é aonde, essa casa de família?
Ceci Belfort: É em São Luís. Umas vão pra São Luís, outras vão pra Brasília, São Paulo, Rio. Essa coisa assim.
Verônica: Sai do Estado, mesmo?
Ceci Belfort: Sai do Estado, mesmo.
Verônica: É… a senhora, ou a  comunidade aqui, o pessoal do povoado, qual é o tipo de veículo que usa pra trazer a produção? Vai é nas costas mesmo, ou a produção…
Ceci Belfort: Da roça?
Verônica: É.
Ceci Belfort: É no cavalo.
Verônica: Cavalo.
Ceci Belfort: É.
Verônica: E o mais utilizado?
Ceci Belfort: É o mais utilizado.
Verônica: E a roça da senhora é irrigada, ou a roça daqui não é irrigada?
Ceci Belfort: Não, não. É roça de toco, mesmo. Trabalhada manual, né?
Verônica: E a senhora cria algum animal?
Ceci Belfort: É só galinha.
Verônica: Só galinha
Ceci Belfort: E porco.
Verônica: Galinha e porco.
Ceci Belfort: É. Galinha e porco.
Verônica: Tudo “pa” comer.
Ceci Belfort: É tudo pra comer.
Verônica: Hum hum.
Ceci Belfort: É… e frutos? Frutos, peixes… tem aqui, na região?
Verônica: Tem, né?
Verônica: Que tipo?
Ceci Belfort: É mais o peixe preto, que dá aqui, pra “nóis,” em termo…
Verônica: É água doce?
Ceci Belfort: É água doce, né? “Nóis” temos aqui os Igarapés. “Nóis” temos açude, né?
Verônica: E esses peixes, eles tão vivendo normalmente, ou tão se acabando?
Ceci Belfort: Não. Eles tão se “acabano” porque se pesca, né?
Verônica: Mas assim: o pessoal pesca além da conta, ou pesca no jeito certo que dê pra eles se renovarem?
Ceci Belfort: Aí vai é… é uma coisa assim, que eu num posso nem lhe dizer porque é uma coisa que cada um faz, né?
Verônica: Na necessidade.
Ceci Belfort: Na necessidade. Se, se acha que a necessidade é pra pegar muito, quando dá pra pegar muito, pega muito mesmo, né?
Verônica: Aí reúne os homens e vai todo mundo, é?
Ceci Belfort: Não, não.
Verônica: Homem e mulher?
Ceci Belfort: Não, não. Essa parte assim, não.
Verônica: Cada um por si.
Ceci Belfort: Cada um por si.
Verônica: E frutos? Quais os tipos de frutos que tem por aqui?
Ceci Belfort: Aqui tem muito é manga.
Verônica: E as pessoas vendem essas manga, ou desperdiça?
Ceci Belfort: Não. Bom, alguns vendem e outros, não. Pelo “meno” “nóis”, aqui, num custuma vender.
Verônica: Tem alguma atividade aqui, área, que destrói a vegetação?
Ceci Belfort: Bem, já houve muito, mas hoje tá menos.
Verônica: Qual era o tipo?
Ceci Belfort: É sim, tiração de palha, né? De talo, de pau, essas coisa. É hoje, eles vendem lenha, mas é da roça. Quando roça, né? Que queima, aí o pessoal aproveita aquela madeira, corta em metro e vendem, pro seu sustento mesmo.

Sr. Tinoco | Quilombo de Santa Maria dos Pinheiros, Município de Itapecuru Mirim, Maranhão [Abril de 2005]
Verônica: E as roças daqui tem algum… alguma mecanização, ou é tudo de toco mesmo.
Tinoco: É. A gente tem um motozim de braço, né? Catana, né? É facão que chama, né? E mesmo, a, a, a, a negócio de maquinário, nunca se usô aqui maquinário, pra nada. Maquinário são os braço da gente. É a enchada, é o machada, é a foice, é o facão, pra se trabalhar. É os único maquinário que existe
Verônica: E aqui tem, quais são os frutos, pé de fruta que tem por aqui? Que dá bem?
Tinoco: A roça?
Verônica: Não. Frutos.
Tinoco: Os frutos?
Verônica: É.
Tinoco: Mato, essas coisas?
Verônica: Não. Mais de fruta mesmo. Tipo mangueira. Tudo que tem aqui.
Tinoco: “Ochente!” Mangueira aqui o que dá demais que atola, mangueira. Manga que dá de mês de agosto até mês de abril. É Manga aqui é direto.
Verônica: É igual lá em Santa Rosa que estraga, é isso?
Tinoco: E, aqui num estraga mais que tem um “boinho” que come. E aí eles vão juntando ali e comendo, mas aqui é uma imensidão mesmo, a mangueira. A fruta da mangueira é muita mesmo, muita fruta. Muita fruta
Verônica: Diga mais aí. Tem manga e tem mais o quê?
Tinoco: Aqui  tem banana, tem limão, muito limão, goiaba, pêra, é…
Verônica: Isso tudo dá de abril a agosto?
Tinoco: Não, não. Essa aí é pouco. Essa aí é pouco. Que dá mesmo de abril a agosto é a manga. Essa aí, tudo bem. Agora esses outros não. Isso aí é só po consumo. As “veis” “panha” um dá “po” amigo, dá o … o limão também dá muito limão.
Verônica: E, e, e essa manga vocês vendem, também?
Tinoco: Hum
Verônica: Ou é só pra comer?
Tinoco: E é só “pa” comer, ia estragar… vaca  veado. (…)
Verônica: E aqui tem algum tipo de extrativismo? Por exemplo, na Amazônia tem muito seringal, né?
Tinoco: Isso.
Verônica: Que a gente extrai a borracha.
Tinoco: Isso.
Verônica: Outros extrai da pedra… minério, né? Aqui tem algum tipo dessa atividade, ou não?
Tinoco: Não senhora.
Verônica: Tem não, né?
Tinoco: Pode até Ter o minério, agora ainda num foi descoberto. Num tem nada.
Verônica: E peixe, vocês pescam?
Tinoco: Pesca.
Verônica: Também só pra consumir?
Tinoco: É. Só “pa” consumir
Verônica: E pesca aonde?
Tinoco: Nós pescamos as vez no Garapé do Criminoso, que é um garapé daqui. As vez…
Verônica: Que nome, hein?
Tinoco: É. Garapé da Mata, que é um garapé que tem alí. As vez pescamos nos açude e as vez no campo, também, nós vamos buscar lá fora, no campo…
Verônica: Campo de quê?
Tinoco: Campo mesmo, campo aí… campo grande.
Verônica: Tem açude, é?
Tinoco: Não. Campo mesmo.
Verônica: E tá… tem alagamento, é?
Tinoco: É alagamento. É.
Tinoco: Tem o Tucum também. Tem o Tucum.

Comments are closed.