Um balanço deste que foi o Percurso dos Quilombos: de África para o Brasil e o regresso às origens

‘Cultura para nós é religiosidade, é o tambor de crioula, o boi, é dançar mangaba, pois é isso que nos faz ter consciência de nós mesmos, que nos faz resistir; é o que foi deixado pelos nossos ancestrais; são os versos do tambor que mostram a nossa história, eles tão contando uma história e por isso a gente nunca esquece; nas músicas sai versos, e esses versos estão dizendo como estamos, o que passamos e o que esperamos.’

Emília Santos | Quilombo Matões de Moreira, Codó, Maranhão.

Este e tantos outros testemunhos de quilombolas do estado do Maranhão foram o mote para um projeto diferente e intenso. A vontade de dezenas de quilombolas uniu-se ao IMVF, AD e à Plataforma das ONGs de Cabo Verde naquele que foi um autêntico Percurso dos Quilombos: de África para o Brasil e o regresso às origens.

No Maranhão, uma das regiões com índices de desenvolvimento mais baixos do país e com uma forte tradição cultural afro-descente, o projeto lançou um desafio a 11 comunidades quilombolas - fazer uso da sua cultura e raízes históricas na luta pela igualdade e respeito pelos Direitos básicos no seio da sociedade brasileira.

Assim, a trabalhar em estreita parceria com a Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (ACONERUQ) o projeto promoveu o reforço institucional de 12 associações comunitárias. O trabalho com estas associações passou pela perceção da diversidade cultural como oportunidade de geração de rendimento e da importância do resgate do seu passado histórico para o reforço e sobrevivência destas comunidades.

Através do resgate das principais manifestações culturais das comunidades envolvidas, um grupo de 21 quilombolas criou, com o apoio de voluntários, um espetáculo cultural que foi, mais tarde apresentado, em São Luís, capital do estado do Maranhão, Cacheu e cidade de Bissau na Guiné-Bissau, cidade da Praia em Cabo Verde e novamente no Brasil, em Brasília. Assim, a cultura quilombola subiu várias vezes ao palco trazendo a novos públicos um pouco da sua história.

Paralelamente, no Brasil, Cabo Verde e na Guiné-Bissau foram dados os primeiros passos no resgate das principais manifestações do quotidiano quilombola e das principais raízes africanas da cultura quilombola. Com um intensivo trabalho de investigação social, a equipa dos três países conseguiu identificar paralelismos culturais inéditos partilhados agora na publicação Diálogos interculturais: Um olhar sobre as raízes africanas nas Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Maranhão, Brasil e, parte deles, registados no vídeo “Cacheu caminho de escravos”. Mais do que retratar a história e principais manifestações culturais quilombolas, esta coletânea de pesquisas revela importantes elementos de ligação, ainda hoje visíveis, entre os 3 países.

De forma ainda mais intensa, em Novembro de 2010, o intercâmbio cultural entre quilombolas, cabo-verdianos e guineenses permitiu vivenciar esses mesmos elementos de ligação e proximidade. Numa intensa partilha de tradições e costumes, foi possível aos quilombolas conhecer culturas próximas à sua, reforçando o seu sentimento de pertença a uma comunidade orgulhosa das suas origens. O filme Festival de Cacheu espelha a riqueza cultural da Guiné-Bissau e o carinho com que foram recebidos estes descentes de escravos africanos. Também os testemunhos na primeira pessoa de quilombolasguineensesdemonstram a importância desta intensa partilha.

No regresso a casa, esta visita a África foi partilhada com as várias comunidades quilombolas do Maranhão como impulsionador do reforço da identidade quilombola e do sentimento de pertença.

Também a favor da reafirmação da cultura quilombola e da promoção do Diálogo Intercultural foi produzido o Documentário Kilombos. Este retrato do quilombo contemporâneo na primeira pessoa foi legendado em português e inglês e está disponível, na íntegra on-line, permitindo assim o acesso a um público alargado.

Progressivamente e ao longo de 40 meses, todas as atividades desenvolvidas pelo projeto tiveram como objetivo comum o de promover o diálogo intercultural através da proteção, valorização e difusão de uma cultura tão pouco conhecida para tantos, mesmo no seu país. A difusão desta cultura e a promoção da reflexão a nível regional, nacional e internacional, da sua importância para a criação das atuais sociedadespotenciou igualmente o seu reforço e afirmação no seio da sociedade brasileira.

A sua aproximação às raízes deu-lhe força. Reforçou o seu orgulho, criou novos laços e trouxe novas perspectivas.O Percurso dos Quilombos quis fazer chegar a cultura quilombola a quem pouco ou nada dela sabia … porém, tal como o afirmam os quilombolas Emília Moreira, Francisco Carlos este regresso às raízes trouxe muito mais … Porque conhecer e compreender a história e cultura quilombola no Brasil é mergulhar na história da escravatura. Também ela, história de liberdade e dignidade, é um pouco de todos nós.

Da rede lançada, dos amigos criados, das pontes construídas … espera-se agora a continuidade desta partilha de diferenças e proximidades. Que o orgulho espelhado nos olhos destes quilombolas dê alento e força para fazer frente a todos os obstáculos que vão continuar a surgir, diariamente, nas suas comunidades. Que a voz e vez dada à cultura quilombola, nestes 40 meses, dêem apoio à sua causa e defendam o direito à diferença cultural e à autodeterminação, mas acima de tudo, o direito à igualdade!

Que o resgate do seu passado se espelhe agora em desenvolvimento … se espelhe num novo futuro …

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