Documentário sobre a história e cultura Quilombola

Protagonistas da sua história, os Quilombolas partilham o seu quotidiano, a sua história e tradições. Os Quilombos contemporâneos  do Estado do Maranhão são por isso o palco principal de um registo inédito que se quer contado na primeira pessoa.

A valorização e difusão da Cultura Quilombola a nível internacional serão igualmente potenciadas pela realização de um Documentário sobre a história e cultura Quilombola. Nesse sentido, em Outubro de 2010 partiram para o Brasil, Paulo Nuno Vicente (Documentarista) e Luís Melo (professor da Universidade de Aveiro). Recebida sempre com muito entusiasmo, a equipa de filmagem conviveu de perto com a realidade Quilombola. De Quilombo em Quilombo registaram as suas tarefas diárias, as suas crenças, as suas festas, a sua luta, o que os move – o que os aproxima e os distingue da sociedade brasileira.

Recolha de imagens num dos Quilombos do Maranhão.

Recolha de imagens num dos Quilombos do Estado do Maranhão.

A origem do Quilombo foi o mote para redescobrir a história destas comunidades. Das raízes africanas à influência da matriz multicultural brasileira, os Quilombos Contemporâneos são hoje o símbolo da liberdade e da dignidade.

Para as filmagens deste Documentário foram visitados, no Estado do Maranhão, os Quilombos de Santa Joana, Matões dos Moreira, Monte Alegre, Santo António dos Sardinhas em Lima Campos, São Sebastião dos Prestos, Catucá, Santa Rosa e Juçaral dos Pretos.

Em Novembro de 2010, a redescoberta da origem do Quilombo leva-nos ao continente Africano. Contrariando as antigas rotas de tráfico de escravos, os Quilombolas viajaram à Guiné-Bissau e Cabo Verde, numa procura pelas suas raízes. A equipa de filmagem acompanhou este intercâmbio cultural, captando imagens e depoimentos no continente Africano.

Na Guiné-Bissau, a região de Cacheu destaca-se como o primeiro local onde terão aportado, no século XV, os navegadores portugueses. A captação de imagens no país incidiu sobre a realidade das tabancas, o artesanato, os tecelões, as crenças, as danças e as músicas. Com o testemunho dos régulos, dos curandeiros e balobeiros, das manjuandades e dos artesãos tradicionais, vamos desenrolando a história de uma Guiné-Bissau enraizada na religião animista, ao som do seu tradicional Bombolom (tambor tradicional da Guiné-Bissau).

Em Cabo Verde, ao som das batucadeiras, a equipa de filmagem percorreu a ilha de Santiago numa viagem ao passado tendo como principal cenário a Ribeira Grande, importante entreposto dos barcos negreiros. Da Cidade Velha às comunidades rurais do arquipélago, Cabo Verde espelha orgulhosamente a sua mestiçagem.

Veja o registo fotográfico do trabalho de campo do Documentário aqui.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Com estreia oficial a 7 de Março de 2012, em Lisboa, o Kilombos marcou já presença em festivais internacionais e cineclubes nacionais. No cumprimento do seu objetivo, de dar a conhecer a cultura quilombola e promover o Diálogo intercultural a nível internacional, o documentário foi legendado em português e inglês.

Baseado em Auto narrativas de quilombolas do estado do Maranhão, Kilombos encontra-se disponível na íntegra em www.kilombos.org.

Um homem desenha os limites da sua terra. Com um pequeno ramo de sapucaia, tenta um mapa de traços intuitivos, irregulares, mas mentalmente exatos. Clack! Quebra-o em duas porções imperfeitas para apresentar, neste chão de terra ocre, uma cartografia coletiva.

Almeida é esse homem. É-o aqui e agora em Matões dos Moreira, no estado do Maranhão. Ligando vértices granulados, o retângulo é agora de pó e com isso, acreditar-se-ia à primeira impressão, vago e composto de matéria volúvel. Mas os seus traços são precisos: na exata medida em que reconstrói pelo traço uma comunidade que é, antes de mais, mental – Benedict Anderson chamar-lhe-ia “imaginada” – a sua cartografia é uma extensão caligráfica da sua identidade.

Ou como diz Emília: «Nós não sabemos onde está Matões de acordo com o conflito. Mas na nossa cabeça, na nossa memória, na nossa história nós sabemos onde estamos». O sentido de pertença a uma identidade extravasa a fronteira do medo. Ser quilombola é estar para lá do lugar. Uma imagem perdura para lá do que representa. «Kilombos» é uma tentativa de cartografia antropológica para os antagonismos do Brasil contemporâneo, metonímia oral do globalizante e do ancestral em fluxo.

Realizador, Paulo Nuno Vicente
Director de Imagem, Luís Melo
Produtor, IMVF

Comments are closed.