Quilombos, mocambos: retrato de um outro Brasil

Pisaram pela primeira vez solo português. Na bagagem, vestuário e acessórios coloridos, peças que os Quilombolas integram nas suas manifestações culturais e de religiosidade. Uma cultura descriminada – e ainda pouco conhecida por cá – que esteve em Lisboa entre 4 e 9 de março pela mão de cinco convidados.

O desafio partiu do IMVF no âmbito do Projeto ‘O percurso dos Quilombos: de África para o Brasil e o regresso à origens’: trazer a Portugal representantes da cultura Quilombola, comunidades descendentes de escravos africanos que foram levados para o Brasil há mais de quatrocentos anos atrás e que são hoje das comunidades mais marginalizadas da sociedade brasileira.

Emília, Francisco, Jacqueline, Maria José e Maria Antónia chegaram do Brasil no dia 4 de março. Longe do quotidiano no Quilombo – nome que designa as comunidades onde habitam os Quilombolas – os cinco convidados seguiram uma agenda carregada com um grande à vontade e visivelmente satisfeitos pela oportunidade de partilharem as suas histórias pessoais, que são também espelho das histórias de toda uma comunidade.

Numa semana intercultural que lhes foi totalmente dedicada, cruzaram-se narrações de desrespeito pelo direito à propriedade – de ameaças e desacatos provocados por grandes fazendeiros e empresários que tentam a todo o custo apoderar-se do Quilombo – e de luta pelos direitos humanos mais básicos, como o acesso a cuidados de saúde ou a uma educação de qualidade.

Uma semana de histórias fortes, contadas por vozes fortes que, não o sendo, já teriam abdicado do seu direito à diferença e à autodeterminação, à preservação do seu legado cultural riquíssimo. Uma visita que reuniu o interesse de várias entidades e instituições ao longo da semana.

Domingo, 4 de março: uma receção informal à chegada

O ambiente foi informal na receção que lhes foi oferecida no domingo. Pela ocasião, os cinco Quilombolas tiveram oportunidade de estar com Domingos Simões Pereira, Secretário-Executivo da CPLP, que lhes deu as boas-vindas e se mostrou bastante agradado em poder conhecer mais sobre esta cultura. Referindo-se ao Atlântico como somente um rio, evidenciou o empenho e vontade da CPLP em aproximar, cada vez mais, as margens e respetivos povos.

Segunda-feira, 5 de março: kilombos – o documentário é visto pelos seus protagonistas

Na Sede do IMVF reuniu-se toda a equipa: a comitiva brasileira – os cinco quilombolas, entre eles Maria José Silva, que é também Presidente da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (ACONERUQ), o representante da Fundação Cultural Palmares, e as técnicas do IMVF que coordenam localmente o Projeto; a comitiva cabo-verdiana – entre eles três representantes da Plataforma das ONGs de Cabo Verde, parceiro no projeto; e a comitiva guineense, de investigadores do projeto e representantes da AD, ONG local também parceira no projeto. Uma sessão de trabalho conjunta onde o documentário kilombos foi apresentado a quem nele participou e a quem ele serve enquanto instrumento de divulgação da sua cultura – os Quilombolas.

Terça-Feira, 6 de março: Assembleia da República, ISCTE e ISCSP

Informados da visita a Portugal dos representantes Quilombolas, o Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Brasil fez questão em receber o grupo, uma iniciativa que pela sua importante carga simbólica marcou a tarde deste dia.

Mas o dia começou logo bem cedo, com uma ida à Biblioteca Municipal do Vale da Amoreira onde os Quilombolas, recebidos por uma turma de 4º ano bilingue – Português/Cabo-verdiano – falaram sobre a vida das crianças nos Quilombos. Ao final do dia, houve ainda tempo para uma conversa informal com um grupo de trabalho do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE-IUL) que se tem dedicado às questões da escravatura e que está de momento a trabalhar na criação de um Museu em Cacheu em memória a esta época da história. Recordando a visita dos Quilombolas, em novembro de 2010, a esta região na zona Norte da Guiné-Bissau, numa viagem de regresso às origens igualmente promovida pelo projeto, o encontro foi bastante emotivo e reforçou a importância deste resgate histórico para os dois países. O dia terminou no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), com a participação de representantes dos três países da comitiva do projeto numa aula de mestrado, na qual foi promovido um momento de partilha sobre a realidade Quilombola e sobra uma das atividades mais marcantes da ação: o regresso às origens, o intercâmbio na Guiné-bissau e Cabo Verde.

Quarta-feira, 7 de março: Seminário Internacional na Gulbenkian

Na quarta-feira, 7 de março, decorreu o Seminário Internacional ‘O Percurso dos Quilombos, de África para o Brasil e o Regresso às Origens’, a causa maior para a vinda dos Quilombolas. O evento, que decorreu na Fundação Calouste de Gulbenkian, trouxe a Lisboa uma reflexão sobre as raízes africanas destas Comunidades e contou com mais de uma centena de participantes. Entre os temas abordados esteve uma reflexão teórica sobre a identidade quilombola, uma tentativa de paralelismos culturais entre as Comunidades Quilombolas do Brasil e as tradições da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, supostos Países de origem, para além da realidade dos Quilombos Contemporâneos: a vida em comunidade, as lutas e direitos, e a importância da valorização, divulgação e afirmação da cultura Quilombola.

O Seminário culminou com a apresentação do documentário Kilombos – um filme-resgate de memórias orais, uma produção do IMVF com realização de Paulo Nuno Vicente e com direção de imagem de Luís Melo e que já está disponível na íntegra aqui. A iniciativa foi acompanhada por uma exposição fotográfica e artesanal representativa dos três países envolvidos na ação.

Quinta-feira, 8 de março: Ser Mulher Quilombola

A propósito do Dia Internacional da Mulher, a Câmara Municipal de Loures associou-se ao IMVF para receber diferentes histórias de vida no feminino. Foram seis os testemunhos – de três mulheres Quilombolas, duas Cabo-verdianas e uma Guineense – que, perante uma sala cheia, permitiram à audiência conhecer as suas perspetivas sobre o que é ser mulher no seu país, os constrangimentos que enfrentam e a forma como encaram os desafios.

Sexta-feira, 9 de março: Um ‘cheirinho’ de Portugal

O regresso ao longínquo Quilombo, no Maranhão, não podia acontecer sem darmos algo em troca a quem tanto nos deixou. O último dia fez-se de passeio pela zona de Sintra e Cascais, com passagem simbólica pelo Cabo da Roca, o cabo mais ocidental da Europa e o local, em Portugal, mais próximo de casa. O passeio em conjunto trouxe à conversa particularidades dos Quilombos, das tabancas da Guiné-Bissau e do interior da Ilha de Santiago. Foi para todos um passeio à descoberta onde a partilha e a amizade mostraram quão pequeno pode ser o oceano que nos separa.

A Semana Intercultural foi uma iniciativa enquadrada no projeto “O percurso dos Quilombos: de África para o Brasil e o regresso às origens” cujo objetivo é contribuir para o diálogo intercultural através da proteção, valorização e difusão da cultura Quilombola. Um projeto do Instituto Marquês de Valle Flôr em parceria com a AD – Ação para o Desenvolvimento (Guiné-Bissau), ACONERUQ (Brasil) e Plataforma das ONG’s (Cabo Verde), cofinanciado pela Comissão Europeia e Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento.

Veja mais fotos da Semana Interculutural aqui.

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Artigo escrito de acordo com o novo A. O.

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