Crenças e Rituais

Durante o período colonial, as festas e expressões culturais negras foram consideradas grotescas, primitivas e obscenas. Códigos de conduta e leis municipais reprimiam a realização dos batuques e festas, fora do horário e locais permitidos pelas autoridades, muitas vezes destruindo tambores. As manifestações religiosas foram por isso alvo de uma forte repressão e controlo policial que vigoraram até à metade do século XX em todo o Brasil.

O Tambor de Mina é a denominação mais comum dada aos terreiros de religião de matriz africana no Norte e parte do Nordeste do Brasil (Maranhão e Amazónia). Caracteriza-se por ser uma religião iniciática de possessão ou transe, cujo processo de iniciação é longo. No Tambor de Mina, os três tambores (abatás) são tocados por homens (abatazeiros) que desencadeiam a função mágica de promover o transe. A origem da expressão Tambor de Mina reside em São Jorge da Mina, região do Gana. 

No Tambor de Mina, as entidades religiosas africanas solicitam a realização de festas e são homenageadas pelos devotos com diversos tipos de manifestações culturais. O Tambor de Mina é marcado pelo mistério, característico das religiões de matriz africana. Grande parte do conhecimento religioso é considerado segredo e é transmitido apenas oralmente e conhecido por poucos.   

No Maranhão, existem dois tipos de Tambor de Mina: o mina-jeje (mais antigo e influenciado pela Casa Grande das Minas Jeje – consagrada ao vodun Zomadonu) e o mina-nagô (influenciado pela Casa Nagô – consagrada ao orixá Xangô). A Casa das Minas é o terreiro de Tambor de Mina mais antigo do Maranhão. Foi fundada no século XIX por africanos escravizados vindos do Reino do Daomé e foi reconhecida em 1992 como monumento do património histórico nacional.   

Altar de terreiro de Umbanda no Quilombo de Santa Joana, Itapecuru Mirim (Foto de Ribamar Nascimento)

Altar de terreiro de Umbanda no Quilombo de Santa Joana, Itapecuru Mirim (Foto de Ribamar Nascimento)

No Tambor de Mina presta-se o culto a:

voduns e orixás – entidades da encantaria africana da nação jeje como Dossu ou nagô como Xangô;  . gentis – encantados da nobreza europeia associados a orixás ou entidades africanas com nomes brasileiros e, às vezes, a santos católicos como Rei Sebastião associado a Xapanã e a São Sebastião; Rainha Dina associada a Iansã ou Dom Luiz, Rei de França associado a Xangô e a São Luís.   

. caboclos – entidades pertencentes à encantaria brasileira. Encantados que tiveram vida terrena, mas não devem ser confundidos com espíritos de mortos. Têm ligações com grupos indígenas e nobres e estão organizadas em nações e famílias, cada uma com seu chefe.  

A partir dos anos 60, o Tambor de Mina e a Mata (Terecô em Codó) passaram a ser bastante influenciados pela Umbanda onde é prestado culto aos pretos velhos e caboclos que descem à terra para trabalhar na cura dos devotos. Os rituais das religiões afro-brasileiras no Maranhão têm também uma estreita ligação com o catolicismo e é comum observar-se altares com santos católicos, a realização de missas, ladainhas e procissões.    

Pai de Santo João Baptista e as suas filhas de santo - Quilombo Santa Joana, Itapecuru Mirim (Foto de Ribamar Nascimento)

Terecô, Mata ou Encataria de Barba Soeira são as designações dadas à religião afro-brasileira tradicional do município de Codó no Maranhão. Embora apresente elementos da cultura jeje e nagô, são predominantes os elementos de origem banto, sendo a língua oficial do ritual o Português. 

Os transes do Terecô acontecem principalmente com os voduns da mata ou caboclos comandados pela entidade Légua Boji-Buá, o príncipe guerreiro, chefe da Mata de Codó e de uma grande família de encantados. As entidades a quem se presta o culto manifestam-se em transe no corpo de devotos preparados para os receber, tal como se processa nos cultos dos orixás, voduns e inquices. 

À semelhança de outras religiões Afro-brasileiras, os pais e mães de santo, sacerdotes e sacerdotisas deste culto desenvolvem práticas curativas associadas ao conhecimento ancestral africano e indígena.  

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