Festas, música e dança

A comemoração da cultura Quilombola exprime-se em grande medida pela celebração da música e da dança.

A Caixeira conduz o ritual do Divino

A Caixeira conduz o ritual do Divino (Fonte: http://www.geledes.org.br)

A Festa do Divino Espírito Santo é um a festa religiosa, celebrada por todo o país como pagamento de promessa. É tido como um ritual do catolicismo popular que converge muitas vezes com as religiões afro-brasileiras, principalmente quando é realizada num terreiro de tambor de mina.

Particularmente no Maranhão, esta festa conta com a participação activa das caixeirasmulheres ligadas ao terreiro de mina da comunidade ou à organização da festa do divinoque tocam caixa. As caixeiras são, geralmente, senhoras idosas que, ao som das caixas, entoam cânticos, de cor ou improvisados, em louvor ao Espírito Santo, sendo por isso responsáveis por conduzir todo o ritual. A festa rebuscada em detalhes acontece num salão chamado de tribuna que representa um palácio real.

A festa do Divino inclui várias etapas: abertura da tribuna, levantamento do mastro, visita dos impérios, missa, cerimónia dos impérios, derrubamento do mastro, passagem das posses reais, fecho das tribunas e carimbo das caixeiras. De entre os personagens da festa do Divino está o Império que é formado por 06 a 10 crianças vestidas em traje de época com coroas e ceptros que representam os imperadores e mordomos. São saudados como nobres e tratados como tal até o final da festa, quando o imperador e a imperatriz passam os seus cargos aos mordomos que os ocuparão no ano seguinte.

Outro símbolo marcante do Divino é a pomba branca que representa o Espírito Santo e a cor vermelha presente na bandeira. Uma das obrigações da festa é dar esmolas aos pobres, distribuir alimentos obtidos com os pedidos e doações e rezar pedindo alimento e fartura para todos. Existe sempre uma bela e farta mesa de doces e comida que será distribuída entre as pessoas envolvidas na organização da festa e os convidados. Diz-se que a quem comer na festa não faltará comida em casa.

As mulheres Quilombolas rodam as suas saias ao som do Tambor

As mulheres Quilombolas rodam as suas saias ao som do Tambor (Foto de Ribamar Nascimento)

O Tambor de Crioula é uma expressão particular do estado do Maranhão, é uma dança, uma brincadeira e também uma forma de pagamento de promessa a São Benedito por meio da dança, do canto e da música de percussão que a todos contagia. É uma manifestação cultural afro-maranhense, mas que actualmente é igualmente dançada por grupos urbanos de danças populares. Geralmente é dançada ao ar livre, mas pode ser realizada em qualquer local e época do ano, inclusive no carnaval e em apresentações públicas.

No Tambor de Crioula, os homens tocam três tambores longos: um tambor grande, geralmente acompanhado por outro tocador que, com as matracas produz variações de acompanhamento na parte inferior do tambor grande; um meião e um crivador. Os tambores com couro numa só boca são aquecidos numa pequena fogueira antes de cada exibição. A tradição diz que enquanto os tambores estiverem quentes não se pára de dançar nem de tocar. Se o tambor ficar frio rápido é porque o tocador não está a bater correctamente.

Os tambores são aquecidos para a festa

Os tambores são aquecidos para a festa (Foto de Teresa Trabulsi)

Por essa razão, geralmente, enquanto tocam os três tambores (conjunto denominado de parelha), outro conjunto de três tambores é aquecido.  Os tambores acompanham toadas conhecidas ou feitas de improviso que são repetidas várias vezes. Cantados em português, os cantos traduzem com alegria os mais variados temas, desde boas-vindas até toadas de amor. As mulheres cantam e dançam, cada uma com o seu estilo próprio, num círculo formado também pelos tocadores e cantadores.

No auge da dança, que é acompanhada por uma aceleração do toque do tambor, a mulher que dança no centro e quer sair da roda, troca com outra mulher uma “punga”, “pungada” ou “umbigada” (uma batida de barriga entre mulheres), que representa uma espécie de convite à dança. Dentro do próprio estado do Maranhão, existem variações regionais conhecidas como “sotaques” que diferenciam os diversos grupos na forma de tocar, cantar e dançar o Tambor de Crioula.

As crianças e as adolescentes levam São Benedito de casa em casa na comunidade (Foto de Ribamar Nascimento)

As crianças e as adolescentes levam São Benedito de casa em casa na comunidade (Foto de Ribamar Nascimento)

O Tambor de Crioula também é dançado como pagamento de promessa sendo, nessas ocasiões, designado de Tambor de Promessa a São Benedito – o santo negro, protector dos pobres e dos negros. No Tambor de Promessa em honra a São Benedito, a comunidade tem uma participação activa na sua organização apoiando o ‘dono da promessa’. Para a festa, as mulheres dividem-se para tratar das refeições para toda a comunidade e convidados. Geralmente as refeições incluem boi, porco, aves e são servidas com arroz, feijão, macarrão e saladas.

Fazem parte do roteiro das comemorações duas salvas de fogos (foguetes): a primeira quando São Benedito chega à comunidade e a segunda antes da ladainha. Crianças e jovens levam o santo a cada casa da comunidade numa colecta de donativos para o santo, que chamam de ‘jóia’. Esta pode ser feita em forma de dinheiro, velas ou ovos. Este último tipo de doação é curioso uma vez que os ovos doados serão chocados para que, na próxima promessa, os frangos sejam servidos à comunidade. Cada morador recebe o santo em sua casa, faz rezas e pedidos. A roda do Tambor de Promessa dura até o sol raiar.

Espreite aqui e aqui o registo de alguns ensaios do Tambor de Crioula para a exibição cultural quilombola.

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